Analisando papéis tribais

É importante analisar a organização social dos antigos heathens se queremos entender melhor como a sua sociedade, visão de mundo e Heathenry tribal funcionavam. Muitos grupos de heathens tribais hoje em dia usam nomes das hierarquias sociais germânicas antigas, com variados graus de proximidade das funções antigas, até onde isso seja possível em nosso mundo atual. Muitos títulos que nos dias de outrora possuíam um forte poder político hoje o possuem somente para a comunidade de heathens tribais que os reconhecem.

Þjóð

A palavra feminina þjóð do nórdico antigo, que significa “povo, nação”, não é exatamente um título, mas o status básico de uma pessoa livre nos tempos dos heathens antigos. Palavras similares nos dialetos germânicos geraram designações para os próprios povos, como Deutsch que significa “alemão” no idioma nativo dos alemães, ou Dutch que em inglês se refere aos holandeses.

No inglês antigo þēod tinha um sentido ligeiramente mais amplo, designando “povo, tribo, nação, etnia”, mas também “local de origem”, e até mesmo “gentios”. Os termos germânicos são possivelmente ligados ao latim tōtus, o qual ele mesmo deu origem a palavras no português moderno como “todo, tudo”. Termos como þēod podiam ser usados também para se referir ao rei, líder do povo, indicando que ele era a manifestação da tribo em si mesmo. No poema anglo-saxão Beowulf  encontramos o composto þēodcyning, o qual pode ser traduzido como “rei tribal, cyning tribal”.

Mas þēod não era a única palavra usada tanto para povo quanto para o líder máximo do povo. Entre os anglo-saxões lēod, quando feminina, significava geralmente “povo, nação”.  Mas quando estava na forma masculina, lēod era sinônimo de “chefe tribal, tribal, rei”, sendo ainda usado para referir-se ao wergild, o pagamento por ter-se cometido o crime de assassinato, visando evitar o início de um feudo de sangue, indicando claramente assim uma justiça, recompensa pacificadora.

Diferente dos dias atuais, ou mesmo da época das monarquias absolutistas que destroçaram os cyningas tribais do mundo heathen tribal antigo, o povo identificava-se com o cyning e com a estrutura social que os reunia. Uma pessoa que integrava o þēod era alguém que havia sido criado dentro do þēaw tribal, alguém que era protegido pela ǣ (lei) e alguém que, mesmo que não fosse exemplarmente dono de uma reputação importante graças aos seus þēawes (virtudes) era ao menos encaixado dentro daquilo que podia ser considerado bom (ou, como agindo conforme o que beneficia a tribo), alguém em quem o sidu da tribo era culturalmente perceptível.

Cyning, reiks, þēod

Existiram diversas palavras para lideranças máximas tribais, que em português são todas rústicamente traduzidas como “rei”. Nossa palavra, em português, nos dias atuais carrega todo o peso do medievo tardio, renascença e grandes navegações: reis absolutistas, monarcas, nobres que não fazem nada a não ser disparar ordens e exibir ouro. Não que os reis tribais não fizessem em alguma escala essas mesmas coisas. Mas na parte tribal germânica da Europa as coisas eram mais complexas do que parecem, à primeira vista.

“Rei” vem do latim rex, significando “rei, monarca, soberano”, e sua forma plural era reges. Um rex para a sociedade civilizada era literalmente “aquele que rege”, no sentido de ser uma entidade separada, transcendental e intocável em relação à sociedade. Ele era o rei de coroa, que veríamos se popularizar mais tarde no mundo medieval, no contato entre romanos e germânicos, e a assimilação da cultura romana pelos povos tribais germânicos.

Todavia, o que chamamos de “rei” tribal era um cargo bem mais complexo; o rei tribal era muitas vezes um cargo militar, jamais um rei com coroa, mas um rei com elmo de guerra, e em vez de um cetro, carregava uma espada com um anel preso ao seu cabo, onde a tribo pronunciava juramentos, aumentando a sorte tribal como um todo. Como podemos ler no dicionário de inglês antigo Bosworth-Toller, na entrada sobre o cyning, o “rei” anglo-saxão:

“Ele é a representação do povo, e brota deles, como um filho faz a partir de seus pais. O rei (king) anglo-saxão foi eleito pelo povo; ele era, portanto, o rei (king) do povo. Ele era o representante escolhido das pessoas, sua personificação, a criança, e não o pai do povo. Ele não era o senhor do solo, mas o líder de seu povo. Ele completava a ordem dos homens livres e era o ápice de sua classe. Como o homem livre [ceorl] era para o nobre [æðele], o mesmo era o nobre para o rei (king). O rei (king) anglo-saxão era o rei (king) de uma tribo ou de um povo, mas nunca da terra. Lemos sobre os reis (kings) dos saxões ocidentais ou dos mercianos, mas não de Wessex ou da Mércia. O rei (king) era, na verdade, essencialmente um com o povo, por eles e o poder deles ele reinava; mas a terra dele era como a deles, propriedade privada. Não era o sistema feudal, e nunca permitiu-se que o rei (king) fosse dono de toda a terra em um país”.

A descrição do cyning anglo-saxão já o coloca em campo completamente oposto a qualquer ideia de “rei” a qual estejamos acostumados. Tácito na Germânia (cap. VII) faz questão de sublinhar as diferenças entre o tipo de poder que ele estava acostumado a ver, e aquele dos povos germânicos:

“Os reis são escolhidos entre a nobreza, os generais pelo mérito. Nem os reis desfrutam de infinito e livre poder, e os generais mais pelo exemplo do que pela autoridade se impõem; se forem prestos, valorosos, se atuam na vanguarda, despertam admiração.”

Já em The fluidity of barbarian identity: the ethnogenesis of Alemanni and Suebi, AD 200-500 (pgs. 9-10) de Hans J. Hummer, vemos uma descrição mais detalhada dos vários tipos de “reis” germânicos:

“Tácito descreveu uma divisão entre os povos germânicos entre reges baseados no nascimento nobre, que governavam em paz, e duces baseados em proezas militares, que comandavam no campo de batalha. Esta divisão de funções pode ter existido para os alemanni em teoria, mas Chonodomarius atuou tanto como rex quanto como dux, e muitos dos outros reges em toda a história de Ammianus são vistos tanto fazendo guerra e intermediando a paz com os romanos. Talvez seja mais apropriado situar as noções de liderança dos alemanni no contexto das tradições políticas germânicas ocidentais e orientais. De acordo com Herwig Wolfram, grupos germânicos do leste, como os godos e os burgúndios, distinguiram o þiudans — um rei tribal e sacro dos povos no passado — do reiks , que era rex de um grupo constituinte. Em tempos de emergência, os vários reiks investiram um dos seus por um tempo limitado com a autoridade monárquica do antigo þiudans. O reinado (kingship) do reiks prevaleceu entre os povos germânicos do leste, já que esses reis guerreiros estabeleceram sua reputação e dominância durante o período ensaios de migração e fundaram reinos bárbaros em solo romano.

Em contraste, grupos germânicos ocidentais, como alemães, francos e saxões, e seus vizinhos celtas abandonaram a alta majestade (kingship) do þiudans na época de César, e os destinos de Orgetorix, Dumnorix, Vercingetorix, Arminius e Civilis demonstram a resistência destes grupos ocidentais para fortes reinados (kingships) de um reiks. Durante o período de migração, os grupos germano ocidentais deixaram de usar o termo reiks para descrever seus reis. O equivalente, derivado do anglo-saxão, era o “cyning” ou “kyning”, que se tornou o termo político mais abrangente dos francos. Cyning entrega os fundamentos sociais sobre os quais o senhorio (lordship) germânico ocidental repousava. A palavra deriva de cyn (kin, parentes) e do sufixo -ing, o que significa “alguém que pertencente a” (por exemplo, earthling no inglês moderno) e atua como patronímico. O cyning literalmente era “o homem do cyn, ou representante do cyn”, daí então era aquele que incorporava o poder do cyn e protegia seus interesses. Dentro de um pagus (distrito), o cyning aplicava-se especialmente ao líder do grupo de parentes (kin) mais poderoso. Se a influência de um rex foi herdada ou conquistada, seu poder repousava na força e coesão do grupo de parentes (kin)”.

Assim, o que chamamos de maneira simplista e longe de entendimento de “rei”, não tinha poderes e regalias infinitas, mas uma série de obrigações, e carregava a sorte de seu povo em sua espada. Ele era o responsável pelos cultos aos deuses e espíritos em esfera aberta. Ele não estava de forma alguma acima da lei, e nem podia agir de maneira tirana, sem o risco de ser sacrificado, se o seu governo não trouxesse ferilidade e friðr. Foi o que aconteceu, por exemplo, com, Domáldr um rei dos suecos.  A ǣ (lei) equivale ao innangarðr, este é igual à tribo, a tribo era igual ao þēaw sidu (costume, ética, moralidade, cultura, visão de mundo), e estes visavam a friðr. Mas para entender melhor os limites do poder de um rei, que em última instância deveria expressar o desejo da tribo ou þēod e materializar seus þēawes ou virtudes, e como ele não poderia constranger a friðr da þēod, é necessário analisar outro cargo, o lǫgsǫgumaðr, juiz ou lawspeaker.

Lǫgsǫgumaðr

Literalmente o “homem que fala as leis”, sua função era intermediar disputas e memorizar e recitar toda a lei tribal, principalmente nos povos germânicos do norte durante a þing, a assembleia tribal que reunia todo o grupo. Um exemplo clássico ocorreu quando o lǫgsǫgumaðr Þorgnýr de Gamla Uppsala, Suécia, atendendo o clamor da þēodobrigou o rei Olof Skötkonung a declarar paz para seu inimigo, rei da Noruega, Olaf o Forte (Olavo II). Não sendo isso o suficiente, o rei Olof Skötkonung ainda foi obrigado pela þing a dar sua filha em casamento.

Como juiz, intermediador, o lǫgsǫgumaðr servia como um grande contraponto tanto aos membros da tribo, quanto aos reis, equalizando interesses entre ambos. Entre os antigos germânicos o rei era e deveria ser expressão do povo, e não o contrário. O lǫgsǫgumaðr era quem garantia isso. Comumente seu mandato durava três anos.

Ġebūras

No theodismo um novato são chamado de þræll ou escravo. Particularmente a ideia de escravidão ou servidão espiritual não agrada a todos. Se está certo para um determinado grupo tribal e as pessoas que querem participar dele usar tais denominações e relações, tudo bem. Mas aqui usaremos ġebūr que é o tipo básico do homem livre na sociedade anglo-saxã.

Ele dependia da terra de superiores nas classes sociais. Isso para ascender socialmente, e o que demandava muito esforço.

Embora hoje as coisas sejam diferentes, e o tipo de esforço necessário é mais intelectual e comunitário, é importante separar pessoas que estão conhecendo e experimentando, aprendendo mais sobre o Heathenry tribal e aquelas que já fazem parte do innangarðr, isto é, entre os quais já foi se estabelecido laço sincero de friðr.

Isso para o bem do innangarðr e para o bem do próprio ġebūr ter a liberdade de sair quando quiser, caso não se acostume ao þēaw da tribo. O esforço para aprender a visão de mundo deve ser feito de maneira espontânea, por se compreender de fato a necessidade e o desejo de vivenciar isso, e não por pressão do grupo.

Goði

Nos dias atuais um goði é quase sempre referido como um sacerdote, mas esse não era exatamente o caso nos dias dos heathens antigos. Ele não era apenas uma contraparte pagã de um líder da religião de Roma. Um goði, todavia, não era poderoso como um jarl ou um cyning. Sua função e poder político era esparso e confuso, comparado a outras lideranças germânicas. Isso se deve ao fato de que a Islândia havia sido povoada há bem menos tempo que a Escandinávia, e que os primeiros noruegueses que foram para a Islândia o faziam fugindo do reinado absolutista de Harald Cabelo Belo. Grupos tribais que formam-se em torno de um goði geralmente não possuem jarl ou cyning.

Jarl

Um jarl ou earl é um cargo nobilitário abaixo do de cyning. Para tribos maiores, que possuem vários núcleos ou membros, é viável a divisão em subdistritos com seus próprios jarl submetidos ao cyning de todo o grupo tribal.

Þyle

Þyle ou Þulr em nórdico antigo, é uma espécie de sábio, conselheiro da tribo e principalmente do chefe tribal, e, no caso do sumbl (libação) funciona como um moderador, impedindo que juramentos impróprios que prejudiquem a wyrd e a sorte da tribo sejam pronunciados. Também é parte de sua função zelar para que os ritos ocorram dentro do esperado, e que todos saibam como agir propriamente.

Cabe ao Þyle ser uma espécie de moderador durante cerimônias mais religiosas e menos ‘políticas’ do grupo tribal.

Þing

Uma Þing não é um papel tribal, todavia, ela é essencial para a manutenção de qualquer tribo. Aqui todo grupo familiar possui um representante, e cabe ao lǫgsǫgumaðr formular as decisões tomadas pelos grupo e fora transformadas em leis, e as registrar ou memorizar, bem como ao cyning servir de garantidor da lei, e portar-se como expressão da vontade e þēaw da tribo. As decisões aqui devem ser tomadas por consenso, e há de se supor que os membros pratiquem a relacionalidade, o dividualismo, e que o cyning carregue e aumente a sorte do grupo através da responsabilidade, bem como lidere pelo exemplo, e não pela força.

Sumbl

Aqui os humanos celebram com os deuses, fazendo juramentos, e não é uma mera bebedeira, só deve-se beber ritualmente. O sentido do sumbl é reforçar os laços de ligação e friðr, e não é apenas diversão. Uma sugestão é que um membro faça um juramento, e o chifre ou copo cerimonial passe com a bebida para que todos os outros provem um pouco da bebida sobre onde foi jurado. Juramentos não cumpridos, desnecessário lembrar, além da sorte individual, prejudicam a sorte grupal.

Blót

São oferendas aos deuses, e ancestrais, principalmente. Aqui as forças sagradas são chamadas para receberem presentes de toda a comunidade, e compartilharem da comida com os humanos. Sacrifícios humanos e animais aconteciam antigamente, mas nos dias de hoje, se puder ofertar a vida de um animal, faça isso de maneira limpa, sem dor e sofrimento ao mesmo.

 

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Essa é apenas uma análise inicial

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