Relacionalidade e tribo

Um aspecto importante de se analisar é que o Heathenry Tribal questiona as mais profundas bases da experiência humana no mundo material. A forma como cada pessoa percebe a realidade é determinada pela sua visão de mundo, ao ponto que ideias que temos como canônicas e óbvias dentro da sociedade ocidental contemporânea parecem sequer ter existido antes da expansão da civilização.

Uma dessas ideias é a individualidade. Enquanto na cultura ocidental tendemos a ver cada membro da sociedade como único e indivisível, como a instância máxima onde a lei pode operar, quando falamos de povos tribais a coisa fica um tanto mais complicada.

Reconstruir a personalidade dos antigos heathens tribais germânicos aponta para uma forma completamente diferente de se entender a si próprio. Enquanto para os ocidentais somos indivíduos únicos e indivisíveis, definidos por nós mesmos, completos, e fechados hermeticamente em relação ao mundo externo, os povos tribais comumente veem a si próprios de uma maneira mais dividual, em um duplo sentido. 

O primeiro, é que aquilo que chamamos de “individualidade”, cai mais especificamente sobre a família, não havendo uma divisão e oposição entre indivíduo e social, ambos formando um todo inseparável (daí a honra ser uma virtude coletiva, por exemplo).

O segundo, é que cada membro do grupo tribal era em si mesmo entendido como formado por uma miríade de substâncias, as quais alteram sua disposição e existência, desde materiais, até as mais sutis: ao mesmo tempo que água, álcool, ossos, carne, sangue, podem compor cada pessoa em diferentes proporções (veja a importância dada a se comer determinados animais, ou carregar determinados amuletos, por suas características), também a hamr, ou forma, que substitui (mas não equivale) ao nosso conceito de alma é formada de várias partes que, embora interdependentes, são quase entidades autônomas em seu próprio direito.

Assim, dentro do Heathenry tribal, em vez de seres individuais fazendo parte de uma comunidade universal, como na sociedade ocidental, a þēaw (costumes, lei, etc.) unem todos os membros que fazem parte do grupo tribal (innangarðr), expressando o espírito do coletivo dos seus membros ou divíduos que existem relacionalmente e não individualmente. Daí a importância dos valores coletivos, da ética, dos códigos, etc.

Característica importante de povos relacionais é o ciclo de presentes. Neles, não apenas algo material é trocado, mas a própria mæġen, como poder pessoal, é investido no outro, os próprios objetos são vistos como portadores de consciência (noção básica em visões de mundo animistas) e capazes de integrar a essência daqueles que os recebem.

Da mesma forma que a automutilação é considerado um ato não aconselhado socialmente, dentro de um grupo de pessoas relacionais a ausência de lealdade, egoísmo, traição, quebra de juramentos são considerados longe do ideal, retratado mitologicamente em figuras como Loki, entre os nórdicos. Os atos que prejudicam o grupo são atos que prejudicam a si mesmo, e são vistos como atos similares à automutilação ou suicídio, se compararmos a sociedade individualista com grupos relacionais. Com isso não intenta-se dizer que na sociedade atual pessoas com tendências suicidas são inferiores, apenas que, num grupo tribal, atos que são contrários à sociabilidade devem ser previnidos, acompanhados e corrigidos, da mesma forma que seria ideal que se acontecesse na sociedade aberta.

Assim, o innangarðr não deve formar-se apenas de um amontado de indivíduos, cada um preocupado com sua gnose pessoal, mas de um todo unificado de consciências e personalidades, de seres que se relacionam, partilham a si mesmos com os outros e com lealdade e sem egoísmo também recebem aquilo que neles é investido. Sem um espírito grupal forte, sem o sentido de unidade, o Heathenry sequer pode ser considerado “tribal”.

 

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