Mæġen

Dentro do Heathenry tribal contemporâneo, poucos conceitos possuem tanta importância como a mæġen (no alfabético fonético internacional /ˈmæjen/, pronunciando-se grosseiramente como “méien”), e estão tão interconectados a todos os outros elementos da visão de mundo tribal reconstruídas dos antigos povos germânicos.

Mæġen, em inglês moderno, pode significar “main, might, strength, force, power, vigour, efficacy, virtue, faculty, ability“, e então, “poder, força, vigor, potestade, eficácia, virtude, faculdade, habilidade”. Esse conceito é extremamente antigo no mundo indo-europeu.

No idioma reconstruído dos proto-indo-europeus (falado provavelmente entre 8.000 e 4.000 antes da Era Comum) encontramos a raíz *megʰ-, “ser capaz, ser apto”. Ela chega ao mundo germânico como *maganą, “ser capaz ou apto, poder”. No saxão antigo transforma-se em megin, no alto alemão antigo maganmegin, e chegou ao nórdico antigo como magn, megin, megn, todas dentro do espectro de significados oferecidos por mæġen. No inglês antigo, além de mæġen há o verbo magan, “poder, estar apto”.

Mas essa noção não está presa ao mundo germânico. Um cognato proto-indo-europeu, *méǵh₂s “grande”, no sentido de great, poderoso, dá origem a vários termos relacionados em significado. Entre os gregos clássicos μέγᾰς (mégas) significada “grande (big e great), largo, poderoso, maravilhoso, estupendo”, e daí o nosso prefixo “mega” em português, usado para denotar grandeza. No latim, temos magnus, “largo” ou “grande”, tanto em sentido físico, como de reconhecimento e poder, como em títulos como Carlos Magno, o poderoso imperador de origem franca.

No português moderno ainda temos mais termos correlacionados. “Magnata”, do latim magnatus refere-se a uma pessoa reconhecida como importante ou grande. “Magnânimo”, do latim magnanimus, significando “grande em espírito”, “de mente elevada”. “Magnanimidade”, de magnanimitas é a característica da grandeza de espírito. Todas essas palavras são relacionadas com o nórdico antigo magn, “força”, e o verbo magna, “empoderar, fortalecer”.

Essa primeira face da mæġen não tem pouca importância, apesar de ser extremamente material. Uma pessoa que tem muita mæġen, algo que talvez vejamos como poder político ou social, carisma, autoconfiança, estabilidade,  reconhecimento, ampla e respeitada reputação, pode ser referida como um magnata, uma pessoa magnânima. A quantidade de mæġen que cada vættr tem é uma das coisas que os diferencia em sua força ou tipo. As divindades são vistas como os seres mais poderosos, logo, os que mais possuem mæġen.

Termos como mæġencyning, um cyning superior ou poderoso, entre os anglo-saxões ou meginskjöldungr, em nórdico antigo, com o mesmo significado, apresentam a relação entre a quantidade de mæġen que uma pessoa pode ter e seu poder social, semelhante ao que encontramos no termo latino māiestās o qual originou em português “majestade”, usado para se referir a reis, mas que originalmente podia se referir à grandeza, magnitude e dignidade também; fazendo menção à qualidade de ser dos deuses; também a condição dos homens de alta escala, como reis, cônsules, senadores, cavaleiros, etc., e, nos estados republicanos, especialmente pessoas de alta classe.

Através das narrativas dos povos germânicos encontramos comumente os reis e chefes tribais presenteando os valorosos e aqueles que fazem atos admiráveis. Não é estranho ver figuras que armazenam muito mais mæġen do que o comum a compartilhando com aqueles que o beneficiam.

megináss é o chefe dos deuses Æsir, e megingjörðr, o cinto principal (main), cinto do poder, é um dos equipamentos do deus do trovão. Meginþing é uma grande assembleia ou encontro. Como vemos, a mæġen é certamente o diferencial, aquilo que confere status e poder especial às coisas, quando presente de maneira maior que o comum.

O ciclo de presentes é a forma básica pela qual a mæġen é passada adiante e multiplicada. Ele acontece de maneira principal, no Heathenry tribal, dentro do innangarðr. Quando todos os membros da tribo possuem muita mæġen, e seus membros estão em harmonia, juramentos sendo mantidos, e o ciclo de presentes está funcionando de maneira natural, multiplicando a mæġen, entre humanos,  vættir, ancestrais e deuses, ela está provavelmente em estado de friðr.

Mas a mæġen também funciona como uma espécie de força “mágica”. Em seu trabalho principal, We Are Our Deeds, Eric Wōdening aprofunda-se em mæġen como um conceito metafísico e o explica da seguinte forma:

“Pelo menos, sabemos que todos os seres vivos a possuem, dos insetos aos homens aos deuses (a asmegin, que Þunor tem em abundância). A mæġen pode ser transferida de pessoa para pessoa; por isso, vemos os reis emprestando spēd (outra palavra para mæġen) aos seus homens antes de entrar em qualquer empreendimento importante. Um homem também pode perder mæġen através de várias circunstâncias. Finalmente, a mæġen poderia ser manipulada através das várias artes metafísicas, como galdor e seiðr”.

Assim, a mæġen pode também ser usada como uma força física ou não. Ela pode ser concedida através de presentes, bençãos, bendições ou ser utilizada em ataques físicos, seja corpo-a-corpo, seja através de galdor e seiðr, seja em batalhas com grandes exércitos. Em sua faceta metafísica, a mæġen é uma força semelhante à mana, ao qi, ou à orenda. A mæġen aumenta a sorte, e é um dos pilares da friðr, e pode ser multiplicada através do ciclo de presentes. Ela é a força essencial que os heathens tribais visam acumular, dada a gama gigantesca de usos que temos ao termos consciência e lançarmos mão de uso dela.