Juramento

Para os heathens tribais a palavra é, simplesmente, sagrada. Palavras são ferramentas poderosas, que possuem sua própria vida e podem ser usadas para lançar feitiços, amaldiçoar, abençoar, e fazer juramentos, entre as suas várias funções.

Um juramento é em sentido geral, dentro do contexto dos antigos heathens, o ato de proclamar publicamente perante a comunidade tribal a verdade antes dela ter acontecido. A palavra “juramento” está ligada ao latim ius, significando “justiça, direito ou lei”, como expressão do comportamento social obrigatório. Mas jurar também implica a presença divina como testemunha dos laços estabelecidos dentro do innangarðr humano, uma vez que o juramento é a massa que preenche e une a sociedade humana, e a função do juramento é social, não meramente individual.

Através do juramento, todo innangarðr tem sua wyrd interligada, e eles são especialmente pronunciados no sumbl, uma das cerimônias mais solenes onde os heathens tribais pronunciam juramentos para a comunidade, como meio de ligarem-se a ela, e fazerem-na avançar e tornar-se mais forte. No sumbl a bebida alcoólica serve como selo do juramento, e é partilhada por todos os membros da tribo ou comunidade.

Em geral, grupos tribais não permitem que todo e qualquer tipo de juramento seja pronunciado, uma vez que juramentos não cumpridos trazem pesados encargos para a sorte tribal do innangarðr como um todo. Assim, o þyle do grupo é responsável por ouvir os juramentos antes de serem pronunciados, ou os negar após serem feitos, em nome de toda a comunidade.

Um juramento nos dias atuais também é comumente acompanhado de um scyld, uma maneira de compensar o que foi pronunciado, caso o juramento não possa ser cumprido, e evitar assim danos à sorte do innangarðr tribal como um todo.

Mas os juramentos têm vários propósitos. Para os nórdicos antigos, um eiðbróðir ou irmão adquirido por juramento tinha o mesmo status e obrigações que um parente consanguíneo, inclusive o encargo de vingança, caso morto. Isso algo que é visto também entre os anglo-saxões através do geféranáð, o juramento de companhia, professado originalmente nos contextos de tropas guerreiras.

Juramentos de lealdade também eram comuns, em geral professados para pessoas de status social mais elevado como jarl ou cyning. Nesse caso, era comum que fisicamente durante o ato do juramento se emulasse a entrega dos seus atos ao recebedor do juramento, colocando-se em posição de respeito, e as mãos dentro das mãos de quem recebe o juramento, como personificação do innangarðr tribal.

Foram encontradas também dezenas de espadas datando o período de migrações germânicas pela Europa, as quais carregam um anel pendurado ou preso ao seu cabo, onde acadêmicos como Ellis Davidson acreditam que eram proferidos os juramentos para figuras nobres. Assim, ao lutar, esses chefes tribais levavam o poder dos juramentos em suas lâminas, o que estava ligado, assim, à capacidade que juramentos têm de influenciar a sorte tribal.

Mas juramentos também podiam ser pronunciados para inocentar algum acusado de crime, geralmente exigindo um número de testemunhas que variava de nenhuma a até doze, dependendo da gravidade do crime imputado.

Palavras para juramento tem uma etimologia importante de ser ressaltada, para compreendermos melhor seu valor. O termo áþ entre os anglo-saxões — o qual deu origem ao moderno oath –, está ligado em sua origem em idiomas ancestrais reconstruídos com “aquilo que foi”, indicando que a materialização do juramento é uma etapa essencial de sua existência. Promessas ou compromissos (pledges) eram expressos na sociedade anglo-saxã como wǽr, ligado ao termo latino veritas, verdade, mas também a várar no nórdico antigo, o qual era a forma plural do nome da deusa Vár, registrada na Edda Poética, a qual testemunhava as alianças entre casais, e a raíz germânica em última instância é *wēra-, referindo-se ao verbo “ser”.  Um voto (vow) vem do latim vōtum significando uma solene promessa a uma divindade.

Juramentos forjam assim a sorte, a wyrd e a honra de um innangarðr tribal. A quebra de juramentos era um dos crimes mais graves que imputava o banimento da comunidade, e ser considerado fora-da-lei num mundo hostil, baseado na força da comunidade, no passado, era algo praticamente mortal. Os juramentos devem ser proclamados com muito respeito e cautela, possuindo severa importância para o Heathenry tribal nos dias atuais.

 

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