Friðr

Friðr geralmente é definida negativamente, como ausência de conflito ou paz. Mas friðr é muito mais que algo negativo. Friðr é uma forma de harmonia estabelecida entre duas ou mais pessoas através de um laço relacional de reciprocidade, que pode ser obtida através de laços de sangue ou de atos e juramentos.

Friðr era no tempo dos antigos pagãos razoavelmente intercambiável com sib (que originou o termo inglês moderno sibling, usado para se referir a irmãos ou irmãs)e servia para denotar pessoas que se engajavam, então, em uma relação familiar, de parentesco, obtendo todos os benefícios e obrigações dessa relação. Os principais tipos de friðr eram então a que era estabelecida entre familiares ou parentes, a friðr estabelecida entre uma tribo e seu chieftain, mas também a que se estabelecia entre o innangarðr humano e o divino.

Quando duas pessoas ou mais estabeleciam laços de friðr, era estabelecida uma sociedade entre elas, para além da ausência de conflito, que era apenas a camada externamente visível deste conceito. A friðr culminava em respeito e abnegação mútua, que em casos extremos, como no assassinato de uma das partes, exigia a vingança da outra parte restante. Ferir uma das pessoas num grupo em que há friðr é ferir todos os outros, é sorver a honra daquele grupo, a qual precisa ser paga, através de compensação (scyld) ou vingança violenta, comumente envolvendo a morte da parte ofensora.

friðr estabelecida entre um membro ou toda uma comunidade e seu líder tribal ou chieftain era necessária para que a sorte do primeiro fosse transmitida para os outros, e se estabelecesse um laço de ajuda-mútua do qual ambas as partes eram beneficiadas. Um chefe tribal que conseguisse trazer muita friðr para o seu povo era comumente muito louvado tanto em vida como em morte, uma vez que o objetivo da boa liderança era assegurar a friðr do grupo tribal que estava sob sua proteção.

O terceiro tipo de friðr era aquela assegurada entre os homens e os deuses. A palavra friþġeard que significa “asilo, santuário” foi usada para áreas sagradas. Um friþġeard seria então qualquer área fechada dedicada ao culto dos deuses. Dentro deles armas eram proibidas, e era considerada uma afronta causar desavenças entre as pessoas nesses espaços; era necessário, para os heathens tribais antigos, que o respeito aos poderosos deuses que ali se conectava num laço de friðr com os humanos fosse mantido de maneira invariável. No poema Beowulf vemos que isso era também mantido na presença de reis, quando o comitatus estrangeiro deixa todas as suas armas de fora do encontro com o rei Hrothgar.

friðr era assim, como abnegação mútua, um ato que gerava paz e transformava a experiência humana, harmonizando-a e tranquilizando-a, sendo o objetivo último do ciclo de presentes no qual os humanos investiam a si mesmos e a sua mæġen uns nos outros. A existência da friðr era algo fortemente buscado, e uma das maiores afrontas ou punições a um determinado grupo tribal, seja nos dias de outrora, seja hoje, é negar-se a friðr aos que se considera inimigos, não associando-se ou permitindo sua harmonização interna.

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